Mulheres: narrativas e lutas.

Virgínea Wolf em 1929 na Inglaterra ao receber um convite para falar sobre as mulheres e a ficção, diz o seguinte:

“Tudo o que poderia fazer seria oferecer lhes uma opinião acerca de um aspecto insignificante: a mulher precisa ter dinheiro e um teto todo dela se pretende mesmo escrever ficção; e isso, como vocês irão ver, deixa sem solução o grande problema da verdadeira natureza da mulher e da verdadeira natureza da ficção.”

Resgato tal escrita ancestral para dizer que escrever é um desafio. Primeiro porque diferente das Inglesas desta época a maior parte das mulheres brasileiras não provem de condições materiais para executar tal tarefa, da escrita.

Segundo, porque no momento em que costuro esse texto; a América vê as democracias serem colocadas em cheque pelo autoritarismo. No Brasil há um golpe, machista, midiático, jurídico e legal e em curso. Na cidade de São Paulo onde vivo um trabalhadora sem teto Edilma foi baleada na barriga por um policial militar em uma manifestação. Nas proximidades da rua onde está localizada a casa que moro a mesma polícia militar baleou, matou, sumiu com três corpos, de adolescentes, e apagou os registros das câmeras das ruas. Nas ruas se prolifera, narrativas, fascistas: “A polícia não mata, faz limpeza!”. No congresso dos horrores o torturados Ustra tem sim, para o terror” com diz Bolsonaro. E complemento que essa fala agride não apenas a presidente eleita Dilma Rouseff. Mas a todas as mulheres brasileiras!

É como costurar uma roupa: corta, costura, dobra, costura de novo. E depois a observa. E percebi que estudar, escrever, pensar sobre gênero me pede um acumulo e sensibilidade sobre a luta das mulheres no Brasil, e a lutas das mulheres pobres!

Assim como, ao invés, de desconsiderar as ordens discursivas do conhecimento acadêmico e legitimo que tanto se debruça sobre isso, combatê-lo! Por exemplo, há tintas e tintas gasto, no último século gasto pela ciência política, na teoria, na filosofia ou seja por alguns homens, sobre igualdade, diferença e economia.

Existe um abismo colossal entre a nossa história e a história das mulheres européias, brancas. Ou os registros existentes da História. Nesse texto, busquei me conectar no não registro. A história das mulheres anarquistas, Dandara, Juremas, camponesas, quilombolas e várias outras lutadoras as quais não sei os nomes ou o que fizeram. Mas que resistiram ao longa desse século de luta…

Nós mulheres não tivemos tal privilégio de nos debruçar sobre tais palavras vazias no decorrer da história. Mas tenho algo a dizer sobre: os homens e as mulheres, são diferentes. Estas diferenças, construídas culturalmente, não é onde se registra o problema de gênero. A questão é que a partir dessas diferenças de gênero: masculino e feminino se construíram desigualdades. E as desigualdades se registram na historia de duas classes que são os ricos e os pobres, tanto na economia política do capital assim como na economia política do desejo, da divisão sexual do trabalho e no reconhecimento de direitos. Portanto, não existe igualdade entre homens e mulheres! Existem leis recentes no Brasil que formalizam a existência humana das mulheres enquanto sujeito de direitos.

Para se ter uma ideia de como a mulher era tratada nessa época, o homocídio era autorizado já no Brasil colonial, uma vez que o país regido pelas Ordenações Filipinas, que valia tanto pra Portugal quanto para seus territórios. As Ordenações davam ao marido o direito de matar a mulher caso a apanhasse em adultério ou por suspeitar a traição. O assassino só poderia ser punido, se este fosse de classe econômica inferior a da esposa morta. O assassino poderia ser condenado a três anos recluso na África.

Com a abolição e instaurada a República, acaba a situação dos negros e negras enquanto escravos, mas não acaba as senzalas pois os “serviços domésticos” foram onde os negros e negras se incorporam e continuavam habitando a senzala. Porque tanto os negros quanto o caipira não ocupavam lugares de trabalhador assalariado. E assim nasce o espaço urbano de São Paulo, onde tinham fabricas, cortiços, vilas, senzalas e quilombos.
Em poucas décadas a cidade de São Paulo teve um crescimento populacional muito grande. E houve uma supervalorização do centro. E na medida que isso foi acontecendo os negros e negras foram imediatamente expulsos do centro. E a construção das favelas fora a alternativa que sobrou! 

No Brasil República as marcas de violências contra as mulheres continuam, ainda no código civil de 1916 as leis fortaleciam a ideia de propriedade do corpo, da vida e da alma das mulheres, se sustentou os princípios conservadores onde em vários artigos está prescrito limitações de capacidade das mulheres em detrimento da decisão de seu pai ou marido. No Art. 242 prescreve que A mulher não pode, sem o consentimento do marido, onde normatiza 8 incisos, dentre eles ter propriedade privada ou bens, exercer profissões dentre outros absurdos. Lembrando que as mulheres negras sempre trabalharam, porque bizarramente na escravidão não tinham o estatuto de pessoas. O que faz ganhar força o modelo ideal da burguesia de “mulher-esposa-mãe-dona-de-casa-assexuada”. 

Entretanto, havia mulheres como Maria Lacerda de Moura, que era educadora em movimentos sociais na década de 20, escrevia em Revistas operárias e anarquistas que junto de muitos outras libertárias da época lutaram pelo voto das mulheres aqui mesmo em São Paulo. Também pautavam muito além disso, como a emancipação da mulher, que não existe sem a emancipação da humanidade; propõem a educação sexual e libertária; o amor livre; a maternidade livre e consciente; a livre união; criticam o casamento monogâmico e contratual burguês, discutindo também as relações hierárquicas existentes também no movimento anarquista, principalmente no que se refere às hierarquias com relação aos sexos, apontando e criticando o machismo nos meios operários.
Somente em 1932 as mulheres tiveram o direito ao voto. E em 1934, é que aparece na constituição que todos são iguais perante a lei citando sexo e raça. Mas de fato é apenas em 1988 que temos a definição de que todos são iguais perante a lei, com a definição de homens e mulheres proibindo a discriminação em função de sexo. Contudo, ainda vivemos sob leis que contradizem a igualdade. O atual Código Penal, de 1940, homens, criminosos que agem “sob o domínio de violenta emoção”, pode ter sua pena reduzida. São os chamados “crimes passionais”.
Na década de 60 até 80, muitas mulheres lutaram contra a Ditadura militar brasileira o que nos distancia da imagem midiática da mulher do lar. Estas mulheres foram para a guerrilha do Araguaia, fizeram guerrilha urbana, fizeram jornais que denunciavam as condições das mulheres na periferia. Posso citar dois jornais; “Brasil Mulher” e “Nós, Mulheres”.
No processo da Comissão Estadual da Verdade, por exemplo, Amelinha, Crimeia e muitas outras mulheres já na democracia, deram testemunhos dos crimes cometidos pelos militares e pelo Estado. Ambas citam processos de violência física e sexual, como choques elétricos na vagina assim como o sequestro de seus dois filhos na época com 6 e 7 anos. A Crimeia, por exemplo, em tortura e na prisão teve seu filho João.
Com estes vestígios autoritário já em em nossa democracia com toda cultura de impunidade e violência contra as mulheres legitimada pelo Estado, vemos hoje no Brasil dados alarmantes, entre janeiro e outubro de 2015 foram:

63.090 denúncias de violência contra a mulher ou uma denuncia a cada 7 minutos.

31.432 ou 49,82% corresponde a denúncias de violência física.

58,55% foram relatos de violência contra mulheres negras

19.182 denúncias de violência psicológica (30,40%)

4.627 de violência moral (7,33%)

3.064 de violência sexual (4,86%)

3.071 de cárcere privado (1,76%)

77,83% das vítimas têm filhos e que mais de 80% destes filhos presenciaram ou também sofreram a violência.

85,85% corresponderam a situações em ambiente doméstico e familiar.

(67,36%), as violências foram cometidas por homens com os quais as vítimas tinham ou já tiveram algum vínculo afetivo, como cônjuges, namorados, ex-cônjuges ou ex-namorados.

27% dos casos, o agressor era um familiar, amigo, vizinho ou conhecido.

*Os dados são da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR), a partir de balanço dos relatos recebidos pelo Ligue 180.


Além dos dados citados, onde se há uma canal entre a população e o governo, temos tantos outros dados que ao olharmos para a cidade também reconhecemos muitos espaços de luta e poucos de acolhimento e conforto para as mulheres sobre a realidade que as mulheres periféricas vivem sofridamente. Não temos direito à cidade. O Estado não garante as mulheres a andarem com segurança pelas ruas e nos transportes. Nossa liberdade financeira, passa muitas vezes pela dependência da existência de creches para os filhos. A vida política fica reduzida muitas vezes a espaços privados porque não tem onde deixar seus filhos ou por falta de espaço ou representatividade nas pautas.

Segundo Lefèbvre: “A cidade e o urbano não podem ser compreendidos sem as instituições oriundas das relações de classe e propriedade” e uma das primeiras opressões de classe como nos lembra Terezinha Gonzaga e Safiotti, é a dominação da mulher pelo homem que a transforma em propriedade e também os filhos.

Neste sentido temos um enorme desafio pela frente que extrapolam as fronteiras dos movimentos populares e feministas para que os espaços se organizem de forma democrática. Devemos reconhecer as mulheres como iguais em direito e compreender nossas especificidades de condição e situação construída historicamente. Com isso nos deparamos com no mínimo dois problemas: O primeiro é que o fato das mulheres estarem nos espaços de decisão significa que estas devem prover de tempo livre, se deslocar do “lugar de mulher” que é considerado como a cuidadora do lar, do marido, dos filhos.

O segundo é que nos espaços públicos existem uma ordem discursiva do que pode ou não ser dito, o quanto estamos apropriados da retórica masculina. Do olhar de julgamento do outro, além de conseguir transitar entre o diversos espaços de debate e disputa que são predominantemente ocupado por homens. Ou seja, é como fazer um debate no espaço público sobre o cuidado das crianças, por exemplo, mas que os homens não aparecem, por considerar este apenas um debate de mulheres, ou colocarem este como um debate “menor”. Enfim esses ainda são desafios para nós, mulheres e homens de esquerda. 

Retomando a pergunta inicial: Existe igualdade? Pode ser, na lei, enquanto cidadão com direitos civis, políticos e sociais. Mas essa igualdade na lei, no dever ser, não superou o que historicamente se produziu a partir das diferenças sexuais. Que foi a criação social dos gêneros; feminino e masculino. Que por sua vez, definiu papéis e funções sociais distintos entre “homens” e “mulheres”. E também uma relação de poder entre os gêneros que ao longo da história oprimiu, descriminou, e submeteu as mulheres a uma condição de segundo sexo. Nesse sentido a sociedade produziu uma desigualdade entre os gêneros.


Se homens e mulheres são diferentes, como podemos ser iguais perante a lei?

As diferenças entre homens e mulheres esta relacionada para o feminismo, que é um movimento político, filosófico e social que defende direitos iguais entre homens e mulheres, e não na dimensão do direito, como foi o caso da luta por igualdade, estão relacionadas com as diferenças do nosso corpo, de nossa identidade, o gênero que nos identificamos e até mesmo as orientações sexuais que escolhemos ou que somos inclinados. Ou seja, somos iguais porque somos diferentes.

Agora entre a lei e sua execução existe uma infinidade de coisas, ou mesmo como estas são aplicadas. Um exemplo disso é a lei maria da penha, principal lei que atende de forma especifica os casos de violência domestica. Primeiro que se queremos acessar a lei, devemos ir até a delegacia, e convenhamos que não é um lugar muito convidativo, tem muitos casos que além da violência domestica as mulheres ao procurarem instituições como esta sofrem violência institucional, como por exemplo nenhuma medida ser tomada para afastar o opressor. Temos diversos exemplos na mídia de mulheres que fizeram diversos boletins de ocorrência por conta de violência, como o caso de Elisa Samúdio, que acabou sendo assassinada!

Soma-se a isso ao tratamento do mercado ao corpo da mulher como coisa. A Mulata do prazer, a devassa , ou como publicidade da cervejaria, Brasil Kirin, antiga Schincariol, dizia: “é pelo corpo que se conhece a verdadeira negra”, o que na consciência coletiva coisifica as mulheres no aprisionamento do belo sendo o esteriótipo da mulher-branca-loira-magra e a mulher-mulata-gostosa. O que culminou com, por exemplo, dados do (IBGE) em 2010 mais da metade das mulheres negras 52,52% – não vivia em união, independente do estado civil. O que as feministas negras tem apontado é uma solidão da mulher negra relacionada com os afetos também modulados por uma formação de identidade nacional brasileira racista. E a questão que fica é até quando nos trataram como mercadoria? Chega, né! Mulher bonita, é mulher que luta!!

Mulheres que lutam por um teto!


Dentro do MTST a construção do espaço da mulher está em contínuo elaborar-se. Isto porque historicamente o meio político constituiu-se masculino e não é só tirar uma linha que ele não será mais assim e como magica tudo se resolve. É importante a orientação política para discernir como o movimento deve se desenvolver, mas têm que haver muito debate, compreensão e paciência para modificar várias formas de entender o papel da mulher. O movimento popular tem o compromisso de conversar, argumentar e convencer mulheres e o homens da periferia sobre seus papéis nos espaços de decisão e atuação.

Hoje as mulheres do MTST são fundamentais em todos os coletivos do movimento, não só porque há paridade, mas porque elas refletem a base social do movimento que atualmente são sua maioria. Os motivos podemos sondar, como o crescente número de famílias chefiadas por mulheres, independência e dependência econômica (não são raras as vezes que mulheres dizem que ao conquistarem as casas se separarão de seus maridos), violência doméstica e entre outros fatores que levam as mulheres a iniciarem suas vidas políticas.

E nesse emaranhado de possíveis formas de se aproximarem do movimento, na grande maioria das vezes pela porta de uma acampamento ela descobre que tem voz, ou seja, através da rotina do acampamento essas mulheres vão tomando gosto pela oportunidade de decidir. Se se tornam coordenadoras, votar em quem vai entrar pra coordenação, decidir onde serão os espaços coletivos, como as cozinhas, onde serão realizadas as reuniões do grupo de acampados de onde elas faz parte, onde serão espaço de lazer e tudo mais que decidirem fazer!

As ocupações que são espaços autônomos e temporários que nos propicia a tomar consciência de si e do lugares que pertencemos na sociedade, é um espaço onde os conflitos são acirrados a todo tempo, já que para o judiciário a propriedade privada vale mais a que a vida dos sem-tetos. Ou quando quem mais faz e decide, que na sua maioria são também as mulheres, que não necessariamente trazem consigo o debate feministas, mas que estão dispostas a lutar pela sua moradia, pela saúde, pelo transporte para garantir um vida digna para si e para seus filhos e filhas. 

Nesse cotidiano, elas percebem que o MTST não é só mais um movimento de moradia, mas um lugar que o antigo formato de se relacionar com o mundo pode ser diferente. E aí, que elas começam a se compreenderem de uma outra maneira, se redescobrem agora como parte de um coletivo e que podem decidir.


Portanto, a base do MTST é muito heterogêneas. Compostas por famílias que estão nas periferias da cidade. Muitas delas lideradas por mulheres. De certo que no MTST as mulheres ocupam lugares de decisão. Muitas mulheres são dirigentes do movimento. E a representação política é importante e quanto mais as mulheres estão nos lugares de decisão e de construção do movimento mais o movimento ganha força e potencia revolucionária. Porque a superação da dominação de homens sobre as mulheres mexe infinitamente na estrutura do capitalismo e como o mesmo se fundamenta na divisão sexual do trabalho, a sociedade conseguirá ultrapassar a barreira da existência de somente dois gêneros, macho e fêmea e que um se sobrepõe sobre o outro em todas as esferas da vida.

Nesse sentido problematizamos a representação política e também a estrutura patriarcal que está enraizada em todos os meios. Inclusive o apoio dos companheiros que são pró feminismo a fazermos esse debate é importante. Não com um pedido de licença nossa para com eles, mas com o ouvir o que temos a dizer e apoiar nossas decisões, isso é uma postura muito importante que fortalece as mulheres e faz com que os homens tenham que entrar em conflito com a masculinidade, outro eixo relevante e também opressor.

Também é necessário que as narrativas das mulheres, assim como uma estrutura que possibilite as minorias se colocarem sejam amplificadas e valorizadas. Como por exemplo, nos atos que fazemos no dia 8 de março. Ou na marcha do orgulho gay que aconteceu na Ocupação Vila Nova Palestina. Ou como as importantes referências femininas que temos hoje na coordenações de acampamento, regionais, estaduais e nacionais em todos os estados organizados pelo MTST.

As mulheres do MTST, não provem de um teto e o espaço que temos que podemos dizer de nosso, são as ocupações. Território onde nos encontramos, debatemos, organizamos atividades e planejamos o futuro. Por isso, as ocupações assim como o movimento é para nós um espaço de escrita de planejamento da cidade que queremos, das relações afetivas que queremos ou que não queremos. Lugar onde aprendemos que somos sujeito da história, que se apresenta e se mostra como sujeito falante. E para finalizar, que ninguém se esqueça: Quando uma mulher avança ninguém pode retroceder!!

Mídia Ninja

Mídia Ninja

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Dia das mães: um salve às mães periféricas e lutadoras!

Bom depois de dois anos de pedir desculpas pelo incômodo de dizer sem alegria no dia das mães. Tenho que dizer que reitero o que disse:Violencia do estado contra as mulheres

“Desculpem o incômodo mas com tantas violências cotidianas, em nossos partos, toda a exclusão que sofremos com relação aos nossos direitos, à moradia, educação, saúde , transporte, integridade física, à autonomia e etc etc…ou seja, somos deixadas para morrer pelo Estado. Abrigadas pela segurança da posse de nossos maridos, filhos ou namorados. Sofremos todos os dias com o medo e a insegurança. Somos violentadas pela sociedade que aponta “você deve ser uma boa mãe!”, e isso significa se matar todos os dias para fazer milhares de coisas, ser escrava do trabalho domestico e do cuidado, ainda sim sair bem na foto igual as mães lindas-brancas-loiras-felizes que aparecem em quase toda publicidade.
,é preciso lembrar das curandeiras, das claudias, das mães torturadas, das mães de maio, das marias, das anastácias…”

Mas desta vez sem pedir desculpa é com soco da porta e pé no peito!! Não mudo de opinião, só estou mais convicta. Porque tem gente morrendo. E os verdadeiros agressores que são o estado, a polícia, os cunhas, e Temers e a cultura de violência continuam fortalecidos andando pelas ruas.feliz dia das maes e pra quem pode

Em 2015 fui interpelada por uma grande injustiça. E ressalto, o quanto “a justiça é inimiga das mulheres” com um texto que fiz a pedido de um amigo. Que narrava o que estava acontecendo comigo pessoalmente:

Há algum tempo venho me escondendo por conta da Violência Domestica, da maternidade, do espaço público …Sabe porque? Estou em um processo judicial pela Guarda da minha filha, Como tudo começou: Até 2013, minha família era: amigos que conheci na universidade federal de São Paulo, Renato, Lais, Gabi e Ana e Anna Julia (minha filha). Morávamos todas num mesmo apartamento no Pimentas. No ano de 2014, a universidade por ser um campus do REUNI (Reestruturação e Expansão das Universidades Federais), assim como as diversas instituições da educação deste período, nasceu com muita precariedade, sem prédio, sem creche, sem biblioteca, sem bandejão e sem moradia estudantil, tive que me mudar de forma provisória para o centro de Guarulhos. O que para os estudantes e professores de classe média alta foi ótimo.
Para nós que crescemos na periferia foi problemático, o aluguel e o custo de vida é bem mais caro. Fora que o trajeto da periferia de Guarulhos até o centro, por ter apenas uma alça de acesso e por ser extremamente distante, dificultou nossa permanência: ou no Pimentas ou na universidade. Eu, no caso, que tinha que refazer a logística também da creche da Anna Julia, que só atendia as crianças por 3 horas e 45 minutos. Que é o tempo menor do que meu horário de aula. Vi que a logística seria impossível para nós.
Nesse momento, por conta de toda a dificuldade. E por ter sempre cuidado dela sem a ajuda ou cuidado do pai, percebi a necessidade de deixa-la com ele. Mesmo porque, eu além de ser sem teto, porque pago aluguel e ainda preciso dividir com outras pessoas, fiquei sem moradia.


Foi exatamente neste momento que voltei para Itaquera e no primeiro dia que cheguei já tomei um susto, pois todo o bairro estava sendo modificado para a Copa do Mundo. E até chegar a casa que minha mãe mora de favor, me encontrei com mil famílias que estavam desesperadas gritando “a tropa de choque esta chegando”, foi mais uma reintegração de posse do legado que a copa deixava.


Fiquei nesses dias com essas famílias. E procurei contato com movimentos organizados, pois o Caraguá leste, tinha sido uma ocupação espontânea e eu não sabia muito como ajudar. Foi nesse momento que conheci o MTST e neste ano, morei na Ocupação Copa do Povo onde fiz luta pela minha moradia. Mas, quando saímos do terreno estava animada a contribuir para mais mulheres como eu, conquistarem suas moradias. Neste sentido, fui ajudar fazer a ocupação Carlos Marighella/Carapicuíba.


Com muita dificuldade, me planejei em 2015 mais uma vez em trabalhar para pagar um aluguel e como tinha combinado com o pai, ela voltaria a morar comigo. Questões que eu não avaliei: Na minha trajetória de relacionamento e gravidez na adolescência tiveram dois casos de violência domestica que chegaram à agressão física. E no final de 2014 uma outra.


Então não se tratava de alguém que eu poderia contar, mas também seria muito ruim para a minha filha morar na ocupação comigo. Nesse momento, o pai pediu a guarda da minha filha argumentando que eu seria uma militante de movimento social e que expunha minha filha a violências policiais. O que é um absurdo, porque se existe violência policial, estes que são responsáveis, e ademais, todos que conhecem o MTST sabem que é um movimento sério e pacifico que nunca iria expor uma criança a tais terroristas do Estado. Dentro do movimento temos uma postura de cuidado com as crianças.


O pai, agressor, esta hoje com minha filha legitimado por uma liminar que usa os seguintes termos: “a genitora que é militante de movimentos sociais o que a considera não apta à execução de sua maternidade”. E mais, conseguiu estipular visitas assistidas por me declarar de autorrisco para minha filha. Ou seja, tenho que ir na casa do agressor para ver minha filha de quinze em quinze dias. O que significa estar distante e não conviver com minha filha como sempre convivi. Mesmo quando ela não morava comigo.


Primeiro absurdo: o agressor conseguiu uma guarda provisória sem que eu tivesse direito de ampla defesa. Segundo: A minha militância e a fé em um mundo onde a vida digna para as mulheres e a periferia tenha o direito de morar e fortalecer a execução da minha maternidade. Terceiro: No processo a uma desqualificação da minha pessoa por eu ser militante, feminista, por eu acreditar que o cuidado das crianças deve ser compartilhado com os genitores e não só de responsabilidade das mães, por eu não ser casada, e, além disso, por eu querer estar no espaço público.
Tudo isso é um extremo abuso e reforça o conservadorismo que acredita que só um tipo de família deve ser respeitada, e reforçar a opressão histórica sobre as mulheres que devem ser passivas ao enclausuramento domestico, a uma casamento com a violência domestica, e com desfacelamento de sua vida de culpa sobre todas as funções que devem cumprir na maternidade. E por isso criminaliza todas as pessoas que lutam.

Eu sou mãe solteira, militante do MTST, estudante e continuarei travando luta pelo meu direito de lutar e de existir enquanto um sujeito falante que apesar de todas as adversidade se mostra! Adversidade, porque toda vez que falo e que escrevo sobre esse assunto, as críticas, a pressão sobre o que eu penso e acho sobre o assunto é muito forte. Assim como o direito que tenho de estar com a minha filha que amo muito e que vem sendo paulatinamente violentada com esse processo julgado por homens brancos e ricos que se quer compreende os problemas sociais deste pais, assim como dos problemas que uma mãe solteira tem, assim como são preconceituosos.

Nesse sentido, e aproveitando a força das mulheres e dos movimentos sociais que se erguem contra o conservadorismo do congresso nacional e do Cunha e contra essa política econômica que reduz nossas vidas a migalhas. Para dizer que sou mais uma, sem medo de lutar! E enfrentar com o meu rosto por um avanço democrático e não retrocesso!

brasilmulherenfrentapolicia1307

Neste ano de 2016, vivemos um processo político bem complicado. Tivemos uma crescente onda de ódio e violência nos últimos anos que passaram por genocídio da juventude negra, a inclusão ao consumo que exclui a população pobre, negra e periférica da sua cidadania contraditoriamente. Caça as Bruxas, quer dizer, Impeachment dirigidos por corruptos. E ex militante da MR8, que pegou em armas para lutar pela democracia contra a ditadura, quando no governo tendo que executar retrocessos da lei antiterrorismo com Levi. Assim como cortes nos orçamentos que mais afetam a população trabalhadora e seus direitos…Enfim vai entender!!

Apesar desse cenário confuso e abominável. Chegamos ao lindo dia das mães, com direito a campanha de facebook ‘I s2 mom’ e muita publicidade, só que não. Quem senti o negro drama sabe que não dá para ser feliz!!

Apesar de tudo o que eu tenho de salve para esse ano:”SOMOS MULHERES E ALGUMAS DE NÓS MÃES, NOS RESPEITEM!!”

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Mundo do Corpo

o aborto da vida1º dia de lua cheia

Plantar no meu corpo: endometriose.

, a dor no peito
aperto do coração..útero fisgando
diagnose: depressão,
em outra época histeria. Tratamento: Masturbação.

Hoje também síndrome do pânico: sertralina, fluoxetina, quetiapina.
má digestão.
Uma nova expressão: os hormônios.
Ah, pensamento clínico desgraçado enquadrou meu útero em uma menstruação salarial.

As raízes flutuam pelo chão, o ar amorfo incorpora um elemento novo na terra
Quem cultiva: máquina, guerra e desumanização. Colhe a escuridão.
E não vê o absurdo, do humano, lua cheia, carnaval, e um devir
de desejo revolucionário de nossas vidas se expandir…

vem ver meu vaso, eu pintei…olha minha planta …é incenso,
tem cheiro, não é inodoro …
eu podei, agora ela vai crescer bonita e ela vai ficar caindo, assim, pra baixo.
eu não sou tão outra assim, a gente é quase o mesmo…
Olha meu corpo, especificamente, meu útero, eu podei.

o absurdo do humano impede nossa vida de se expandir.
Absurdo humano: guerra, máquina, desumanização…quem cultiva colhe escuridão…
então, apesar do desejo revolucionário de expandir a vida, do trabalho reprodutivo
Pra que ter um filho se ele é a perpetuação do absurdo humano: máquina, guerra e desumanização.

Frida kahlo

o mundo no corpo

3º dia de lua cheia,

Me sinto completamente sozinha. É uma solidão devastadora. Como se o que sinto não aparecesse e nem coubesse em nenhum lugar. Não apenas com esse cenário mesquinho de golpe, da direita, da rede globo, dos empresários mas também com a escalada fascista sutil, que passa pelos corredores, pelas vielas, pelas ruas, mercados e condomínios. E imediatamente me dizem, com ódio: Você é uma mulher! Assim esta  condição me arrasta para as profundezas que de forma alguma queria chegar, arranca minha pele, incha meu corpo vibrátil até explodir meus órgãos. Minha coluna se desmonta. Tem uma potencia que fica entre meu útero e minha coluna que dói. Como se eu fosse um pedaço de qualquer coisa. Em alguns anos, minhas partes corroídas pelas algas, suposta natureza de mim, deixo de existir.o aborto da vida 1

Condição nossa, autodestruição de si.
Ser mulher, permanecer na superfície da destruição,
do cansaço, do calabouço,

Da carniça morta, nascem flores..
Apesar do peso do asfalto e grades,
conservadores da história!
eu não sou tão outra assim, a gente, eu, você é quase o mesmo.

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50 anos de medo, tortura, censura e morte de um pais…

ato-assembleia-marigato-assembleia-mariga-2

A ocupação Carlos Marighella, ao mesmo tempo que luta por uma moradia digna. Se depara com o autoritarismo da polícia militar e seus abusos de poder. E também com uma elite que em prol de segregar não somente a riqueza do país, a cidade, as ruas…Criam muros todos os dias. E desta vez o muro não foi só simbólico.

No dia 29/09, três dias após a ocupação, um grupo autodenominado “Associação de Moradores da Granja Viana” junto com a guarda municipal de Carapicuíba e da polícia militar iniciaram, a construção de um muro em uma das ruas que dá acesso a ocupação Carlos Marighella. Com o argumento, é que a rua foi feita por eles e que por isso poderiam fechá-la quando bem entenderem.
Mas esqueceram que além de impedir o acesso das famílias da ocupação Carlos Marighella, o muro também impedia a passagem de moradores da comunidade que moram ali próximo.O resultado da indignação dos moradores da comunidade está clara nas fotos que mostram o muro derrubado. (https://www.facebook.com/mtstbrasil/posts/800661416638858)

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Os muros e a segregação da cidade tanto nos envergonha, quanto demonstra o preconceito que os ricos têm dos pobres. Principalmente dos pobres que lutam por uma vida digna.

Além desta ação ilegal da Granja Vianna. Acompanhamos em várias ações da polícia militar para criminalizar a ocupação e os acampados, nos primeiros dias da ocupação estes cercavam o entorno e impedia as pessoas de passarem principalmente se estes estavam com algum material que denotava fazer parte da ocupação, como bambu, lona, martelo Assim como apreendiam os mesmos materiais. Muitas vezes, levaram de forma ilegal carros e motos, dizendo que estavam estacionados em lugar irregular. No entanto a rua ouro preto não tem placas, e se os automóveis estão estacionados desde que não  obstrua o fluxo da rua não há nada de irregular, como bem não explicou um representante da C.E.T que também foi até o local.

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Além disso, ocorriam abordagens a todo tempo com todos que circulavam pelo local, construindo que ali certamente tinham suspeitos. Em uma madrugada entraram na ocupação, sem identificações foi o Tenente Christiano inclusive, que o reconheci no momento, sem ordem judicial, dizendo que havia tido um disparo de tiro. Entraram causando transtorno para todos que já estavam dormindo, assustando as crianças e as mulheres. E fortemente armados. Nós pedíamos a eles que também entrasse desta mesma forma em uma das casas da granja Vianna, que em um dia que as crianças brincavam em um terreno da frente da ocupação, jogavam bola, e foram disparados desta casa, número 42, oito disparos de tiros. Obviamente que eles não fizeram o mesmo! Nesta mesma madrugada eles pegaram o primeiro homem, jovem, negro e disseram que ele era suspeito. E levaram para fora da ocupação, até puxar seu RG. Viram que estava limpo e por causa da nossa mobilização tiveram que liberá-lo.

Nós sabemos que são cenas como estas, que acontecem todos os dias na periferia, onde os nossos filhos, primos, tios e irmãos….Somem, quando por algum motivo passam pelas mãos da polícia. O que seria isso se não preconceito e genocídio?

Do outro lado, os granjeiros não satisfeitos com, os muros e a violência por parte da polícia. Contrataram seguranças privados. E estes também cometeram várias abusos e violações dos direitos. Como abordar, revistar, bater e deter objetos dos acampados.

Além desse cotidiano de terror, construído pela polícia, granja, e segurança privada. A promotora Camila, ao invés de julgar como afirma a lei, ao invés de exercer seu cargo em função da lei. Tornou-se advogada particular dos granjeiros. Abrindo um processo civil, tendo uma das militantes do movimento como testemunha, mas que pelo tom parecia mais uma réu. Logo depois, surgiu quatro processos criminais contra a mesma militante, um deles, desobediência civil por chegar atrasada no dia do depoimento, esbulho possessório e ameaça porque os granjeiros se sentem ameaçados pelas ferramentas que usamos para construir nossos barracos como inchadas, martelo, facão. Constrangimento ilegal, dano e ameaça por conta do muro.

E furto da água.Fizemos um pedido para a Sabesp ligar a água para a ocupação. Cometendo uma violência institucional a Sabesp se negou a ligar, com a argumentação, de que se ligasse a água estaria ajudando a legitimar a ocupação. Mas no processo civil, deixaram muito nítidos que sem ordem judicial não desligariam a água. Um dia depois, de o desembargador negar o pedido que o ministério público de Carapicuíba pedirá reintegração de posse. A Sabesp chega ao acampamento acompanhado da Polícia Militar leva cinco companheiros detidos e deixa mais de 4 mil famílias sem água, a pedido da promotora30.

Policiais civis também nós visitaram para dizer o seguinte: ”que tem negócios, e falar de quais são as suas terras. Logo para não ocuparmos, para não ter problemas com eles. E também para lembrar que o Marighella era muito bom, mais morreu”.

Há uma ligação da violência estatal de ontem com a de hoje31. Nesse sentido já queríamos agradecer de antemão a comissão de direitos humanos da assembleia que abriu este espaço para o MTST realizar as denuncias que o Estado de direito diferente da ditadura militar, mas também continua perpetuando a violência. E seus agente continuam a perpetuar sobre a lógica de reiterar as desigualdades sociais e não superá-las.Pedimos um posicionamento sobre estes fatos desta comissão e de toda esta assembleia. A juventude e a periferia que é negra não aguentam mais morrer e não aceitamos mais ser vitimas das desigualdades produzidas historicamente. Nós queremos viver, e exigimos uma vida digna! Com todos os direitos e acessos que nos cabem, como de moradia, a cidade, ao transporte público de qualidade, a segurança desmilitarizada e ao exercício da política que não seja autoritária! http://letras.mus.br/caetano-veloso/um-comunista/

MTST!
A luta é pra valer!
Ontem e sempre….Marighella e todos que lutaram por um outro país. Vivem. Pela a resistência que fazemos no hoje!

Observação: No movimento dos trabalhadores sem teto a presença das Mulheres se dá de outra forma!!! Temos espaço! Tem questões menores que também expressa o machismo da sociedade. Afinal, fazemos parte de um movimento social e não de uma bolha. Esse texto foi escrito para a fala que fiz na assembleia legislativa, onde teve uma audiência pública por conta dos casos de violência do Estado que ocorrerão contra a Ocupação Carlos Marighella. O que é muito contraditório pois no mesmo período que tivemos essa audiência o mesmo Estado estava publicando os dados da Comissão Nacional da Verdade e violência contra os em teto ainda existe permissividade por esse mesmo Estado.

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É Golpe, mas tem revolta!

Quando uma sociedade inteira avança,
e nenhuma violência da polícia é mais natural
os jovens negros que morrem, são defendidos
e podem estar nas praças públicas, porque agora elas existem!
Na imensa periferia que outrora murmura milhares de mensagens….

Agora eclodindo nas escolas, vielas, telemarketing, shoppings, tribunais e nas ruas
Nós existimos, estamos aqui! Queremos espaços e temos fome, de justiça!! Quero falar de filosofia e entender e política

E não acreditamos nessa política e justiça pálida da mídia, do juiz ou dos ricos de verde amarelo que batem panela nos territórios nobres da cidade.
Nossa justiça é vermelha, robusta, cor de sangue,
de todos aqueles que morreram, dos clandestinos, das guerrilhas…e imensidões de angustias abafadas!

das mulheres trabalhadoras que sabem por onde trilhar
não estão em nenhuma marcha pela família propriedade e com Deus. Lutam pelo seu espaço, pelo seu direito à cidade, moradia e trabalho digno! E não se recrudescem no anjo do lar, porque o orgulho que espera ela de seus filhos é por ser uma lutadora!

os trabalhadores sabem da existência de dois lados
mesmo que a mídia golpista, evoque crime aonde não existe
que o juiz interprete a lei como chicote do capitalista burguês
ou que a propriedade seja sempre mas defendida do que a vida!

Quando tudo isso avança,
façam golpe, votem o impeachment
Inventem mais uma vez que nós, lutadores, somos os terroristas…
Dê voz de prisão quem tá no fronte da guerra,
Tire a guarda dos nossos filhos…

Nada adiantará por que quando uma sociedade avança,
nenhuma instituição falida ficará ilesa
nenhum discurso bobo vou colar nas minhas paredes….
posso neste momento não ter força para combater, mas mesmo em casa, na universidade, escola ou na rua.
Sei o lugar que o ocupo!

E minha consciência vocês não podem fazer retroceder!
Mesmo tendo um golpe.
Insisto: Não teve a Copa do mundo, não terá Golpe
Tivemos a Copa do Povo e agora uma Esperança vermelha:

O que nos falta?
Hugo Chaves, Lamarca, Carlos Marighella, Oziel Alves, Dandara, Maria Bonita sempre no fronte!
Na batalha sem retroceder, porque onde um corpo morre
A luta continua sendo pra valer!!

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Epidemia da Auto defesa

ocupação do MTST na secretária geral da presidência e manifestação por todas elas

ocupação do MTST na secretária geral da presidência e manifestação por todas elas

tenho medo de andar na cidade,
de me posicionar politicamente,
de me manifestar,

tenho medo da polícia,
dos homens,
da dor de perder um filho,
das câmeras,

minha grande questão é: levantar da cama.
O que aconteceu comigo?
será que eu não sou uma mulher de coragem?

medo, solidão, choro, uma mulher foi baleada,
uma apanhou da polícia, a outra do companheiro.
Outras ainda tiveram seus filhos negligenciados e/ou mortos.
tenho medo, tenho medo, chorei…e eu não sou uma mulher de coragem?

minhas armas: meu poema, minha voz, minha escrita, meu discurso.
meu corpo: dilacerado
minhas falas: silenciadas, interrompidas.
meu amor: endêmico de auto defender me.
minha terra: roubada.

posso me encontrar com você, posso fazer qualquer coisa: Desde que eu não precise sair de casa. Seu excesso de segurança me domesticou! Não sinto mais coragem! Tenho medo!
Bilhões e bilhões gastos com a segurança pública,
quanto a isso: tenho pânico!

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Um testemunho: A justiça é inimiga das mulheres?

Há algum tempo venho me escondendo por conta da Violência Domestica, da maternidade, do espaço público …Sabe porque? Estou em um processo judicial pela Guarda da minha filha, Como tudo começou: Até 2013, minha família era: amigos que conheci na universidade federal de São Paulo, Renato, Lais, Gabi e Ana e Anna Julia (minha filha).

Morávamos todas num mesmo apartamento no Pimentas. No ano de 2014, a universidade por ser um campus do REUNI (Reestruturação e Expansão das Universidades Federais), assim como as diversas instituições da educação deste período, nasceu com muita precariedade, sem prédio, sem creche, sem biblioteca, sem bandejão e sem moradia estudantil, tive que me mudar de forma provisória para o centro de Guarulhos. O que para os estudantes e professores de classe média alta foi ótimo. Para nós que crescemos na periferia foi problemático, o aluguel e o custo de vida é bem mais caro. Fora que o trajeto da periferia de Guarulhos até o centro, por ter apenas uma alça de acesso e por ser extremamente distante, dificultou nossa permanência: ou no Pimentas ou na universidade. Eu, no caso, que tinha que refazer a logística também da creche da Anna Julia, que só atendia as crianças por 3 horas e 45 minutos. Que é o tempo menor do que meu horário de aula. Vi que a logística seria impossível para nós. Nesse momento, por conta de toda a dificuldade. E por ter sempre cuidado dela sem a ajuda ou cuidado do pai, percebi a necessidade de deixa-la com ele. Mesmo porque, eu além de ser sem teto, porque pago aluguel e ainda preciso dividir com outras pessoas, fiquei sem moradia. Foi exatamente neste momento que voltei para Itaquera e no primeiro dia que cheguei já tomei um susto, pois todo o bairro estava sendo modificado para a Copa do Mundo. E até chegar a casa que minha mãe mora de favor, me encontrei com mil famílias que estavam desesperadas gritando “a tropa de choque esta chegando”, foi mais uma reintegração de posse do legado que a copa deixava. Fiquei nesses dias com essas famílias. E procurei contato com movimentos organizados, pois o Caraguá leste, tinha sido uma ocupação espontânea e eu não sabia muito como ajudar. Foi nesse momento que conheci o MTST e neste ano, morei na Ocupação Copa do Povo onde fiz luta pela minha moradia. Mas, quando saímos do terreno estava animada a contribuir para mais mulheres como eu, conquistarem suas moradias. Neste sentido, fui ajudar fazer a ocupação Carlos Marighella/Carapicuíba. Com muita dificuldade, me planejei em 2015 mais uma vez em trabalhar para pagar um aluguel e como tinha combinado com o pai, ela voltaria a morar comigo. Questões que eu não avaliei: Na minha trajetória de relacionamento e gravidez na adolescência tiveram dois casos de violência domestica que chegaram à agressão física. E no final de 2014 uma outra. Então não se tratava de alguém que eu poderia contar, mas também seria muito ruim para a minha filha morar na ocupação comigo. Nesse momento, o pai pediu a guarda da minha filha argumentando que eu seria uma militante de movimento social e que expunha minha filha a violências polícial. O que é um absurdo, porque se existe violência policial, estes que são responsáveis, e ademais, todos que conhecem o MTST sabem que é um movimento sério e pacifico que nunca iria expor uma criança a tais terroristas do Estado. Dentro do movimento temos uma postura de cuidado com as crianças. O pai, agressor, esta hoje com minha filha legitimado por uma liminar que usa os seguintes termos: “a genitora que é militante de movimentos sociais o que a considera não apta à execução de sua maternidade”. E mais, conseguiu estipular visitas assistidas por me declarar de autorrisco para minha filha. Ou seja, tenho que ir na casa do agressor para ver minha filha de quinze em quinze dias. O que significa estar distante e não conviver com minha filha como sempre convivi. Mesmo quando ela não morava comigo. Primeiro absurdo: o agressor conseguiu uma guarda provisória sem que eu tivesse direito de ampla defesa. Segundo: A minha militância e a fé em um mundo onde a vida digna para as mulheres e a periferia tenha o direito de morar e fortalecer a execução da minha maternidade. Terceiro: No processo a uma desqualificação da minha pessoa por eu ser militante, feminista, por eu acreditar que o cuidado das crianças deve ser compartilhado com os genitores e não só de responsabilidade das mães, por eu não ser casada, e, além disso, por eu querer estar no espaço público. Tudo isso é um extremo abuso e reforça o conservadorismo que acredita que só um tipo de família deve ser respeitada, e reforçar a opressão histórica sobre as mulheres que devem ser passivas ao entesouramento domestico, a uma casamento com a violência domestica, e com desfacelamento de sua vida de culpa sobre todas as funções que devem cumprir na maternidade. E por isso criminaliza todas as pessoas que lutam. Eu sou mãe solteira, militante do MTST, estudante e continuarei travando luta pelo meu direito de lutar e de existir enquanto um sujeito falante que apesar de todas as adversidade se mostra! Adversidade, porque toda vez que falo e que escrevo sobre esse assunto, as críticas, a pressão sobre o que eu penso e acho sobre o assunto é muito forte. Assim como o direito que tenho de estar com a minha filha que amo muito e que vem sendo paulatinamente violentada com esse processo julgado por homens brancos e ricos que se quer compreende os problemas sociais deste pais, assim como dos problemas que uma mãe solteira tem, assim como são preconceituosos.

Nesse sentido, junta minhas força com as mulheres e os movimentos que se erguem contra o conservadorismo do congresso nacional e do Cunha e contra essa política econômica que reduz nossas vidas a migalhas. Para dizer que sou mais uma, sem medo de lutar! E enfrentar com o meu rosto por um avanço democrático e não a esses retrocesso!

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eu, mulher; e; o espaço, público – 6

 Feminismo Dentro e Fora da universidade.

Em um dos nossos encontros, na roda de conversa, rebemos a visita da Amelinha, militante feminista e dos direitos humanos, uma das importantes articuladoras do feminismo em São Paulo desde reabertura democrática. Ela também fundou a União de Mulheres de São Paulo, que desenvolveu o curso das Promotoras Legais Populares, voltado apenas às mulheres, em busca também conscientizá-las das discriminações e desigualdades produzidas na sociedade. Põe em evidência que educar em direitos é um caminho imprescindível para a consolidação da democracia. (1)

Amelinha conta que sua história om o feminismo acontece após observar sua militância contra a ditadura militar de 64 à 85, onde descreve que as funções que as mulheres tinham na militância, eram geralmente funções desvalorizada. E um dos marcos para sua experiência foi quando esta viu que as mulheres estavam pouco envolvidas na luta política, após observar que na Marcha da Família com Deus pela Liberdade que aconteceu no dia 13 de março de 1964, ela diz “Eu fui para a rua porque eu queria ver, e eram quilômetros de mulheres” nesse momento ela percebeu uma fragilidade na esquerda em não compreender a necessidades ou especificidades das mulheres na luta. E lembrando que foi nessa articulação conservadora onde os militares tiveram apoio da população para a tomada do poder.

O interessante de ouvir a experiência da Amelinha é que em 2012, quando estávamos em greve ainda percebemos tais requisitos de uma esquerda aonde o machismo esta presente. Lembro-me que quando discutimos as pautas prioritárias do movimento, rapidamente a creche foi descartada enquanto uma pauta, e foi um grupo de mulheres que se articulou para demonstrar a importância da creche enquanto pauta de luta na universidade. Além disso, a dificuldade de uma mulher, por exemplo coordenar uma mesa nas assembleias. E lembrei-me da seguinte questão: Em uma das assembleias uma mulher foi chamada de vadia (2), nos articulamos para fazer uma ação estética-política na assembleia seguinte, a ação se tratava em ocupar o lugar que somente os homens faziam, que era a mesa da assembleia inclusive sua coordenação (demos o nome de vulva na mesa), tod@s nesse dia seriam Monique (a mulher que foi de forma pejorativa chamada de vadias, e digo isso porque para nós ser vadia não é uma ofensa. Somos todas vadias, e queremos respeito!). E além disso colocamos a discussão do feminismo no comando de greve (lugar onde ocorriam debates semanais para delegar tarefas e fortalecer o movimento de greve). Nesse dialogo ouvimos disto para baixo: “Para coordenar uma mesa tem que ter culhões”, “não podemos discutir feminismo se for para fragmentar a luta política”. E o mais interessante é que desde o início da greve nós mulheres fazíamos muitas tarefas e no momento de definir os rumos políticos que ela teria sempre eram os homens que faziam. Outra ação foi estarmos na mesa sem a blusa.

Uma das questões que fazem com que nas discussões os homens consigam definir rumos em discussões, é que muitas vezes estes são mais apropriados da retórica, por estarem mais acostumados com a disputa de voz e fala nos espaços públicos. Outra questão é ainda uma ideia da mulher como ser passivo. Que caso grite ou queira disputar o poder tenham algum problema, pois o “natural” são mulheres que falem baixo, que esperem que ouçam, e que sejam calmas. Se perder a paciência já demonstram sinais de histeria. E aí já é vandalismo!

Quando articulamos a Marcha das Vadias na Unifesp, no mesmo dia da marcha tais companheiros marcaram uma reunião do comando de greve, e então quando chegou a hora desta reunião os homens decidiram começar a reunião sem nós mulheres que estávamos organizando a marcha. E a argumentação é que teria que garantir a reunião, pois esta seria a atividade política mais importante para o processo de luta, a reunião do comando de greve. Tratando assim a articulação própria do feminismo como algo menor. Foi muito simbólico, todos os homens saindo da sala onde estavamos organizando a marcha. Nesse sentido reforçando que a luta contra o machismo é uma questões somente para as mulheres.

A marcha das vadias, por exemplo, inicia se em Toronto quando um policial em uma aula na universidade, Diz, que se uma mulher esta com uma roupa curta tudo bem que esta seja estuprada. Nesse sentido a marcha das vadias, acontece, com a ocupação das ruas com corpos que dizem: “Minha saia e minha blusa decotada não é um convite”. Enfim queremos que nossos corpos sejam respeitados e isso independe de como nos vestimos ou nos portamos. E a prioridade desta marcha é que ela não seja sexista e nem excludente. Mais que possa abarcar as questões de gênero, do desejo, da orientação sexual e da identidade de forma geral. No blog da Marcha das Vadias de Sampa o posicionamento que conjuntamente elas constroem sobre a Lei Maria da Penha é que se deve construir “o empoderamento das mulheres, visando a uma sociedade mais humana, justa e igualitária para todas as pessoas. Uma visão crítica sobre as limitações na aplicação da lei é essencial para que não nos contentemos e para que continuemos lutando por sua  efetiva implementação.”(3)

Um questionamento de Amelinha, é a pouca sintonia que a universidade têm com os movimentos sociais. No ano passado, uma estudante da Unifesp foi agredida pelo seu ex-companheiro no meio do pátio do campus. A mesma denunciou à Delegacia da Mulher e a Unifesp abriu uma Comissão de Sindicância. Recentemente os trabalhos da Comissão se encerraram e concluiu que deveria ocorrer: um “encontro restaurativo” entre agressor e agredida. Ou seja, a UNIFESP demonstra tanto esconder a própria violência e não respeita o próprio ordenamento jurídico do país, que é a lei Maria da Penha. Então a universidade tanto esta distante dos movimentos sociais como de todo o resto da sociedade.

Além disso, o que tem acontecendo é um genocídio contra as mulheres. E nos deparamos no interior de uma universidade, onde inclusive, o feminismo é reconhecido como objeto teórico. Mas na prática se há a decisão de não recorrer ao direito pois uma comissão de sindicância tem o poder de julgar o que melhor poderia ser feito? Isso demonstra no mínimo um retrocesso. Além disso, mesmo o movimento estudantil e alguns grupos organizados continuam produzindo a ideia que não se deve recorrer à delegacia pois esta não resolveria o problema, e violentaria mais ainda a vítima, assim como não podemos deixar de pontuar que o encontro entre esses movimentos e a polícia é marcado por diversas outras violência. E sabemos que somente a denuncia não resolve o problema do machismo na sociedade, mas sem a denuncia também as mulheres continuam sendo violentadas e nós estamos morrendo e não podemos aceitar a ideia que a denúncia é nos vitimar. Foi realizada uma importante mudança na lei que diz muito sobre esse aspecto:

“É necessário que algumas mudanças ou deslocamentos no discurso do Direito sejam feitas, de forma a garantir essa interpretação feminista ou o método feminista no Direito. E aqui chego ao ponto que queria: a Lei Maria da Penha, ao tratar da mulher e da violência doméstica, abandona a expressão “vítima”, substituindo-a pela expressão “mulher em situação de violência doméstica”.”(4)

Interessante, que levantei a questão na ordem de pensar um tal problema das identidades. Que para mim aparecia assim: Na universidade é comum que as pessoas se classifiquem como isto ou aquilo. Confesso que tomei um determinado susto em observar que mesmo aquelas que se classificavam como feministas, em determinados acontecimentos de violência contra a mulher, por exemplo, os dos casos de estupro que ocorreram não sabíamos ao certo, o que deveria ter feito. Em ato pensei diretamente que só pelo fato de alguém ser feminista, teria uma formula mágica de enfrentar todos os acontecimentos, dado que a partir, desta classificação não se existe mais o sujeito. Mas a categoria a qual representa. Ser feminista não necessariamente significa saber como destruir o machismo no mundo. A questão é muito mais ampla do que isso. Ser feminista é uma luta cotidiana contra o machismo que esta na sociedade em todos os lugares, inclusive na universidade, e em nosso próprio corpo.

Nesse sentido, se colocar enquanto feminista, trata-se antes, de uma apresentação enquanto um sujeito ativo que atravessa o morrer e que se mostra. A partir de deslocamentos e da decisão de escolher a escolha de uma experiência ética em relação ao mundo, a sociedade, a rua, ao corpo e a si mesmo. Do que um reforço de uma categoria política-jurídica-social-ontológica, de feminista, mulher, pessoa e etc etc. Nesse sentido uma feminista ou várias delas é um vir a ser constante, sempre em construção.

Além disso, aceitar que na universidade se deve trabalhar com objetos, temas que se transformam em pesquisas, cristalizadas em ideias para além de um mundo atual. É uma Ideia impregnada por certa dose de platonismo. Daquele que olha para o mundo sobrevoando sobre o mesmo. Nesse sentido encarando a filosofia de forma clássica. Como aquela que estaria for a olhando para o mundo que não pertence. No entanto o que o feminismo mostra é que é na relação do nosso corpo, dos nossos problemas pessoais é onde conseguimos apontar os problemas e a partir disso inventar corpo-pensamento e identificar nos discursos o que se apresenta de perspectivas feministas, ação política e pensamento. Então dizer que a Amelinha, apresenta o feminismo classista da esquerda revolucionária da década de 60. Seria categorizar demais o olhar, pois a relação que seu corpo tem como essa atual democracia assim como teve com a ditadura militar não se trata somente de um discurso ou uma narrativa, ao contrário, sua experiência com o feminismo e com a luta pelo direitos humanos enuncia que mesmo na democracia a luta por um projeto diferente de sociedade deve se construir ampliando o que chamamos de tod@s. Quem é o todos que existe no direito?. Abarca as crianças, as mulheres, as classe sociais, as etnias, @s diferentes orientações sexuais?.

E não podemos entrar nas mesmas emboscadas que criticamos. De transformar um todo, em especialidades teóricas, ou afirmar inversamente, uma prática. Ambas estão imbricadas no agir do sujeito sobre o mundo. E tudo isso nos atravessa! Não somos somente mulheres, ou somente lésbicas, ou somente das classes trabalhadoras. Somos tudo isso. E entender como sair dessas amarras, dentro da universidade que cada vez mais nos envolve em uma arquitetura, de caixas-categorias do pensamento e departamentalizações do conhecimento, parece um bom caminho para abrir um dialogo com os movimentos sociais e não ficarmos fechadas em nós mesmas.

Sinto que a demasiada problemática da universidade não conseguir o dialogo com seu fora este conectado com esse problema. E podemos colocar esse bloqueio em três planos. A primeira, na dimensão do poder. Como a instituição pode decidir para além dos ordenamentos jurídicos existentes, e como cada sujeito carrega em si a institucionalidade universitária, e acredita se “distanciar” do plano da vida por isso. Retirando de si e dos outros as experiências que temos com o mundo? Ou o que demonstra o caso de violência doméstica que ocorreu no pátio de um dos campis desta universidade, compor uma pilha de denúncias existentes de casos de homofobia e racismo e esses casos de violência estarem somente nas instâncias burocráticas desta instituição? Que tem como proposta abrir comissões de sindicância?. Isso é autonomia universitária? ou demonstra a relação de poder da instituição universitária como uma bolha social?

A segunda, da ordem do saber, a institucionalização da produção de conhecimento. Nesse sentido tal instucionalidade pressupõe a uma construção de conhecimento legítima dialogando com quais saberes? Que não estão inscritos no que os diversos movimentos se pautam, por exemplo, sobre a lei Maria da penha? Se pensa construir conhecimento como distante da palco político e social que vivemos? Deveria nos causar estranhamento ter contato com escritas que narram ‘sobre’ o mundo, a política, a filosófia, a ciência e não conseguirmos as utilizar no tempo de nosso próprio pensamento?(5). Ao contrário, nossa formação parece focada em escolhas de método, o qual iremos operacionalizar, uma objetivação da realidade. Isso é reprodução da história do pensamento? E já entrando no terceiro plano, subjetivo, é como compreendemos a tarefa daquele que pensa. Realmente existe esse que pensa, e os outros comuns que não? Se encararmos nossos corpos como campos de batalha, aquele que carrega a sociedade, as lutas, entre o saber-poder inclusive. Isso é comum a tod@s aqueles que vivem. Não somente aqueles que estão na universidade. Sendo assim qual seria nossas possibilidades e limitações? O que estamos fazendo aqui?

Bom, pensamos(6) que essa seria a primeira barreira a superarmos. A barreira milenar de como se constrói o conhecimento, na tradição das humanidades. Superar a Ideia do grande olho que vê tudo. E desmanchar-se da Ideia do dentro. Porque o dentro só existe em relação ao fora. Então estar dentro é porque se é fora. E estar no fora é porque se pode estar dentro. Nesse sentido, dentro-fora e fora-dentro, é o lugar não lugar onde a singularidade perpassa. Que nada tem a ver com o pessoal ou o individuo. Mas que encontramos em nossa individualidade e experiência e também as transcedem1. E “pensar sem garantias é, antes de tudo, crer: crer num mundo quando não há mais mundo, crer num possível quando não há mais possível, crer na vida, apesar do intolerável. Crer no lugar de saber(…) Pensar sem garantias é, enfim, pensar no limite, experimentar o limite onde o pensamento toca a vida.”(7)

Nos encontramos todos os dias, professores-alunos, em salas de aulas, vezes, como cães e gatos. Um lado espera uma tomada de consciência das classes(do vespertino ao noturno) o outro especialistas ou especialidades a seguir.

Bom, não imaginamos quais proposições podemos fazer para esse momento, para esta universidade em crise, e tão pouco sabemos se conseguiremos enfrentar tais problemas. Mas reconhecemos a transgressão, a esses saberes, no pensamento do fora que violenta, o poder de dizer EU, ou a nossa experiência de um dentro bloqueado por máquinas de corte(8). Desta forma seguimos nos debatendo contra as paredes que nos cercam, e pulamos para fora inclusive de si mesmo, e não no acaso encontramos com o outro. Nesse momento alcançamos a certeza de que ainda não pensamos (9).

Ass: uma proto feminista ou em devir-feminista.

1 – Fernandes, Fernanda Castro. Quando o direito encontra a rua.

2 – http://greveunifesp.wordpress.com/2012/05/11/machismo-nao-passara/comment-page-1/

3 – http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2012/05/as-humilhacoes-dos-trotes.html

4 – https://marchadasvadiassp.milharal.org/tag/lei-maria-da-penha/

5 – http://blogueirasfeministas.com/2012/07/nao-somos-seremos-vitimas/

6 – Coloquei no plural, porque ninguém escreve sozinho, não é possível escrever sem estar em relação com toda uma mutidão que povoa a linguagem A escrita nos é comum e não. Não, porque ela se dobra a diferentes experiências que temos com relação ela mesma. E sim porque ela nos é comum enquanto forma de linguagem.

7 – Foucault, Michel. Arqueologia do Saber.

8 – Maciel, Jr. Auterives. O que nos faz pensar?

9 – Levy, Tatiana Salem. Experiência do Fora.

10  – Este texto foi escrito após a greve de 2012. É importante ressaltar que foi no período de greve que as mulheres conseguiram construir unidade de luta, assim como pulverizar o debate feministas para todos os lados e direções.

(Fonte: https://filopol.milharal.org/2013/09/16/feminismo-dentro-e-fora-da-universidade/)

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eu, mulher; e; o espaço, público – 5

brincando com as humanidades para não dizer sobre a condição humana….

esmero sinfonico-imagem                                                             Esmero sinfónico

Me utilizo dos espaços da sala de aula, nas disciplinas, nos grupos de discussão, dos corredores, nos grupos do facebook entre outros espaços para pensar sobre a crise da universidade e os problemas que enfrentamos em 2012, neste campi.

Gostaria de pensar sobre outras coisas, que para alguns parecem mais nobre, como as grandes problemas construídos pelos sociólogos, filosófico ou dos historiadores. Ocorre que não consigo realizar tal empreendimento. Primeiro porque o modelo de universidade que temos, me apresenta ferramentas que não vejo sentido e que não sei operacionaliza-las, como a história das ciências sociais focada em três autores, Durkheim, Marx e Weber no iluminado debate da sociologia. Isso não significa que não queira saber, ou que não me interessa esse debate. Ao contrário, gostaria muito de participar desta discussão. Mas a conjuntura política em que a formação de futuro pesquisadores se coloca, dificulta tal possibilidade.

Um exemplo disso é a distância do imenso oceano que existe entre nossa conjuntura política e nossa grade, assim como os nossos sistemas de avaliação, nossa infraestrutura, nosso financiamento e nosso sistema interno e externo de exclusão. Mas como diz, o Alemão Weber, a ciência é um valor. Então como pensar na universidade, sem a propriedade do gesto de valor  cientifico? E de forma precária porque estamos sem possibilidades de ter pesquisadores vocacionados por aqui.

Penso no seguinte exemplo, imagine colocar uma indígena da comunidade dos guarani kaiowá em um apartamento de 46 metros quadrados obrigando a adquirir uma  máquina de lavar. Vamos tentar imaginar seus problemas. O primeiro, imagino de ordem subjetiva, é como explicar para essa indígena que é benéfico lavar roupa em uma máquina pois assim  ganhará tempo? Bom, vamos supor que nós consigamos explica-la a ideia de tempo ocidental moderna e aja uma aceitação de sua parte pelo uso. Suponhamos também que depois de muitos problemas ocorra uma compra.

Enfim a indígena e a máquina. Então os problemas seriam de como operar tal  instrumento.  Podemos mostrar a ela, o manual de instruções. Acontece que ela não sabe ler. Contudo o que esta em questão são os enunciados simbólicos que não ditos para que estão presente a todo momento.  Ou seja, por mais que possa ser bem fundamentada a necessidades de se utilizar determinadas ferramentas para o pensamento, ou por mais que seja necessário tal máquina, o livro, o autor, a didática. As vezes, ele pode não servir para outras que fogem do sujeito imaginário daqueles que elaboraram um projeto para o outro. E nesse sentido existe críticas para os universais. E nesse sentido, temos um leque de possibilidades e especialidades do que e como fazer ou construir problemas de pesquisa, e processo de ensino e aprendizagem. Mas a forma a qual realizamos tal trabalho, é incontestavelmente, mediada por encontros, de sala de aula, cadeira,  lousa e o texto X de um autor geralmente europeu.

Nesse sentido continuo não podendo dizer que este é um trabalho. Pois a disciplina e de formação e se propôs a discutir outras temáticas. A não ser que transforme essa vontade de conhecer em objeto, fundamento. No entanto quem saberia realizar tal gesto de valor ? Entendem a experiência dos novos sujeitos, alunos e professores, que estão nesta universidade?

Enfim essas são perguntas que tenho me colocado. E, ao invés de, realizar trabalhos que têm como objetivo sistematizar o pensamento dos autores, ou os aprendizados da disciplina. Utilizo esse espaço para abrir dialogo com os docentes. E elaborar uma outra convivência que não seja apenas mediada por currículos, ou bloqueada pela representação imaginária que fazemos do outro, como não humanos, aluno ou professor. Hannah Arent entende como não humana a vida que decorre em função da mera satisfação de necessidades, desprovida das condições que possibilitam aos homens criar alguma forma do novo.

O que podemos lembrar dos acontecimentos em 2012 em nossos campus? O que continuamos repetindo? E é possível elaborar tais acontecimentos em um cenário de crise das universidades no brasil?

 

                                                       Perceptos cantados

              Para Nietzsche,  a memória é uma doença. O tempo não pode ser detido, a vontade não pode “querer para trás”, isto é, corrigir o curso de suas escolhas passadas. O ressentimento, para Nietzsche, é uma característica dos fracos; tem parentesco com a covardia moral a que se refere Freud. O ressentido, para Nietzsche, vê em tudo aquilo que o oprime e fere, o “mal” no sentido moral, e em contrapartida elabora a imagem de si mesmo como “bom”. Assim, o ressentido, em vez de fortalecer-se e lutar, sente-se moralmente autorizado a demandar do seu opressor que não seja forte. O ressentido, escreve Nietzsche, sofre de uma memória reiterada, de um impedimento a esquecer. O que ele não pode esquecer? O agravo. Por isso, não pode entregar-se ao fluxo da vida presente.

No texto, “memória e (res)sentimento: Indagações sobre uma questão do sensível” as autoras abordam o ressentimento preocupadas com a repetição que Benjamin demonstra em uma das suas obras. Como se fosse necessário repetir, viver uma ditadura novamente, ou sentir o que é uma ditadura. Assim como a ideia do fim da narrativa tradicional, trazida com as memórias traumáticas. Faz com que tenha um corte, uma dificuldade na lembrança e elaboração do que foi a ditadura. Pois o trauma gera perda ou declínio de experiência. Experiência de compartilhada com a comunidade humana, de pai para filho tais experiências com o mundo.

Para Freud recordar, seria colocar-se a tarefa do pensamento espontâneo, na clínica tratar daquilo que o paciente, ou o investigado, propõe, focar no trabalho, e utilizar a interpretação essencialmente para reconhecer as resistências que nela surgem e torná-las conscientes para o doente. Preenchimento das lacunas da recordação e superação das resistências da repressão.  Ele descreve o procedimento clínico como uma observação da experiência: de esquecimento das impressões, cenas, vivências reduz-se em geral a um “bloqueio” delas.

Utilizei os vídeos produzidos no ato pela permanência da EFLECH, publicados por três perfis diferentes. Para lembrar minhas impressões e vivências em 2012. E é realmente difícil aceitar o lugar que fazemos parte. O vídeo, são imagens em movimento deste dia, em que eu estava presente. Mas ele me trás outras vozes que eu não havia escutado. Outras pessoas que não tinha visto. E obviamente, pensar outros em perspectivas diferentes do que naquele momento. E isso não anula o lugar que cada um ocupa no acontecimento. Mas o deslocamento acontece, como se tanto fosse outra a olhar para aquele vídeo. Como as imagens trazem focos que eu desconhecia.

Também recorri a textos de três diferentes fontes. Uma fonte foi o blog da greve, produzido pelos grupos que compõe o movimento estudantil. Neste há uma análise deste ato como uma manifestação de repressão aos estudantes e aos movimentos sociais. Com o argumento que “Por trás do “ato em defesa da EFLCH”, no entanto, está a política da reitoria de tentar acabar com a ocupação e a greve e, o que é mais grave, de tentar legitimar uma possível ação repressiva contra o movimento estudantil“[1]. Nesse sentido convocam um ato em resposta para que não ocorra uma desarticulação da ocupação.  Já no blog, Pimentalab[2], um projeto de extensão, encontramos um texto com fotos, de impressão positivas sobre o ato, como um espaço que possibilitou que os três setores. Professores, alunos e funcionários pudessem compartilhar suas vozes. No site, pelo departamento de comunicação  institucional da UNIFESP, o ato é celebrado como um espaço importante para “reestabelecer no campus o clima de harmonia, respeito ao diálogo e pluralidade que devem caracterizar a vida acadêmica.”[3]

Dias depois, lembro me que ocorreu um confronto direto entre professores e alunos. Porque alguns professores decidem tirar os piquetes feitos pelos alunos que estavam barravam as salas de aula. E os piquetes eram vistos pelos alunos como uma forma de garantir a deliberação tanto da greve, como da ocupação. Esse ação dos dois sujeitos, construiu um conflito que gerou violências verbais e físicas de uma categoria contra a outra. Quero não me esquecer deste momento. Pois esse  foi um acontecimento chave, onde observei que o que estava em disputa não eram os discursos que que rodeavam tanto os professores quando os estudantes. Pois a nossa ação não estava mais mediada   por diferentes discursos. Porque ambos os grupos não se falavam e nem se ouviam. Estávamos mediados pura e simplesmente por imagens representativas do ser professor e do ser estudante. Que   depois, se tornou dentro da limitação da ideia de política clássica amigo-inimigo. Um grupo deve   combater o outro, e perde-se a possibilidade de nós vermos como humanos, iguais na ação com as diferenças discursivas.

E isso acompanhado da perca total de convivência entre professores e alunos. Hannah Arent aponta que “De qualquer modo, desacompanhados do discurso, a ação perderia não só o seu caráter revelador como e pelo mesmo motivo, o seu sujeito por assim dizer: Em lugar de homens que agem teríamos robôs mecânicos a realizar coisas que seriam humanamente incompreensíveis”. Um exemplo, disso é porque o conflito se instaurava no campus sendo que estava dentro de uma conjuntura nacional de greve. Onde o que se problematizava eram pautas de ambas as categorias. E além disso a distancia entre esses sujeitos realmente se dá pela posição institucional que estas tenham? Ou seja, há alguma coisa a mais que ligue os estudantes além de categoria estudantil que é uma representação institucional para o conjunto de pessoas matriculadas nesta universidade? E a mesma pergunta é possível fazer o conjunto de professores?

Hannah Arent, também apresenta uma ideia de homem do futuro. Como aquele incapaz de realizar um estado de presença a tal ponto de não mais compreender sua própria existência. E este seria um problema político, atrelado ao processo de produção de verdade, da própria ciência. Assim como de uma confusão humana profunda, cito “ Seria como se o nosso cérebro condição material e física do pensamento não pudesse acompanhar o que fazemos de modo que de agora em diante, necessitaríamos realmente de máquinas que pensassem e falassem por nós. Como é possível que os corpos quando se encontram, estejam bloqueados a realizar um reconhecimento humanos no outro?

Para Freud a elaboração se dá na relação entre o lembrar e o esquecer. No filme, “Que bom te ver viva” mulheres que foram presas políticas e foram violentadas pelo estado militar narram sua experiência, só uma das narrativas é realizada por uma atriz. O filme foi produzido em 89, todas as narrativas dessas mulheres é possível notar que elas prosseguiram suas vidas, algumas delas realizam trabalhos cotidianos ligados ao processo de lembrança de forma mais direta, como é o caso de uma que continua sendo ativista. O filme mostra como cada um delas colocou em alguma atividade essa possibilidade de lembrar e se esquecer, uma na maternidade, no ativismo. É interessante a personagem que narra a história interpretada pela atriz Irene Ravache, ela narra aquela que escolhe não esquecer, ressentir. E na última cena do filme fica claro que o fluxo da vida desta está interrompido, pois ela narra sempre a partir do quarto. E seus desejos de se encontrar com alguém permanece bloqueados pela imaginação e fantasia.

Na obra de Maria Rita Kehl ela Anália o ressentimento como um afeto que marca a sociedade brasileira. Mas o impasse não esta naquele que ressenti mais sim nas características geradas pela construção do sujeito político que esta sempre reivindicando sua sobrevivência em  um local, ou seu níveis de mutabilidade. Cito:

 

“A vida nua produz uma espécie grave de abatimento e resignação, mas não o ressentimento. Este é o afeto característico dos impasses gerados nas democracias liberais modernas, que acena, para os indivíduos com a promessa de um igualdade social que não se cumpre, pelo menos nos termos em que foi simbolicamente antecipada. Os membros de uma classe ou de um segmento social inferiorizados só se ressentem de sua condição se a proposta de igualdade lhes foi antecipada simbolicamente, de modo a que a falta dela seja percebida não como condenação divina ou como predestinação – como nas sociedades pré-modernas – mas como privação. São os casos em que a igualdade é oficialmente reconhecida, mas não obtida na prática que produzem o ressentimento na política.”

 

 

                                                      Uma experiência

Acompanhei na experiência de quase uma vida inteira de educação formal. Que alguns bloqueios realizados pela imagem que fazemos do outro. Acontece pela  representação simbólica daquele que sempre lhe dirá o que deve ser feito.  A figura dos professores é representado “daquele que sabe de tudo”. Em 2012 quando me deparei com uma crise institucional e com os acontecimentos na universidade, onde ocorreram as disputas de projetos políticos. E inclusive os dispositivos de segurança do estado, a polícia, foi chamada pelo próprio diretor acadêmico que é um professor. O que discordo completamente. Ao mesmo tempo que essa imagem do professor que aprendemos, em no mínimo onze anos de ensino básico, foi sendo paulatinamente desconstruída. Fiquei altamente surpresa que alguém que estuda pedagogia possa ter chamado a polícia para estudantes. Ao mesmo tempo que fiquei surpresa comigo quando chegou em um nível de esgotamento absurdo de greve. E não mais conseguia ver os professores como pessoas e sim como inimigos.

E faço a análise que o interromper a convivência dos iguais com os diferentes discursos no mesmo local acordou muitos traumas, tanto da escravidão, guerras e ditaduras. Constantemente sonhava com esse contextos.  Penso que a não elaboração coletiva do que tenha sido o fascistas, as ditaduras e o totalitarismos. Faz com que estes estejam em nós, recalcados. Prontos a maquinar nossos desejos, escondido nos discursos. Assim como impossibilita a  construção de novas formas de vida, de relação, de si e com o outro, e inclusive com o conhecimento.  E sei que não é possível realizar tal elaboração enquanto ainda existir a polícia militar.

pm- twiter reintegração [4]

O que realmente é autoritário? E o que é violência?

[1]http://greveunifesp.wordpress.com/page/55/ (visualizado dia 21/08/2013)

[2]https://pimentalab.milharal.org/2012/06/05/impressoes-do-ato-pela-eflch/  (visualização no dia 21/08/2013)

[3]http://dgi.unifesp.br/sites/comunicacao/index.php?c=Noticia&m=ler&cod=4c94dd01 (visualização no dia 21/08/2013)

[4]Reintegração de posse da diretoria acadêmica. Como será possível elaborar alguma coisa. Se para sentir o passado em nossa democracia altamente militar, ou recebemos uma bala de borrada, porque estudantes privilegiados. E no caso de moradores das periferias as balas são de metal mesmo.

[5] Este texto foi escrito como trabalho final da disciplina memória, politica e cinema. No segundo semestre de 2013.

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eu, mulher; e; o espaço, público 4- o suicídio

Entre idas e vindas, de Durkheim à Tocqueville, “passando” pela luz dos Frankfutianos dentre outros clássicos quaisquer, nascidos logo ali, na França… Em uma universidade pública na periferia de Guarulhos acontece um suicídio. O que demonstra esse ato de um corpo que não aguenta mais? O que exatamente nossos corpos não aguentam diante desta grande fábrica, a universidade? Ela que disciplina corpos, que mata nossa juventude e nossa inocente potência de que um outro mundo seria possível a partir de algo bem inventado como a reflexão. Ah ! Nossos problemas, nossas questões, nossas angustias….”A imensa periferia que murmura milhares de mensagens abafadas” . Hoje, as palavras de Jean François Lyotard criaram ecos ( ecoaram? ) na universidade quando nos deparamos com a morte de um jovem corpo que não aguentou. Não, não aguentamos mais. Os corpos não querem mais ser docilizados: Grande parte do pensamento das humanidades foi construido com sangue para evidenciar as contradições da modernidade: as guerras, as ditaduras, a exploração dos homens e mulheres. Hoje refutamos a ( refutamos o quê? tem que dizer o que está sendo refutado… ) quando precisamos avançar na crítica, aqui, na periféria sobre nossas questões. Ao passo que nos encontramos no interior desta escola de humanidades, lutando para manter a tradição da resistência, caberia uma pergunta: será que as humanidades foram domesticadas? O que significa o suicidio de um jovem, negro, gay, dentro de um centro acadêmico de uma universidade pública na periferia? A universidade não deveria colocar para si mesma essa questão afim de responder o que é a atualidade da própria universidade? Qual o lugar que ela se reserva para a reflexão do que somos, dizemos e pensamos – sobretudo em momentos de crise, quando a morte se enuncia no campus universitário? Certamente já é possível ouvir algumas desculpas, vozes que apontam para “fatos isolados e fortuitos”, como se o suicídio e a subjetividade não fossem também eles socialmente constituídos, como se a universidade fosse um campo neutro, onde cada um de seus atores não fossem afetados em seus corpos pelas forças e contradições que atravessam as relações de poder.

Mais um corpo negro, mais um gay, mais uma vadia, mais alguns…..E continuamos?. Por quanto tempo continuaremos a renegar nossas veias que são outras sempre abafadas, sempre. Nossos corpos doem, construímos novas periferias e ampliamos, deste modo, os limites da cidade. As cidades produzem vidas, para que as mesmas se matem. Mesmo assim nada disso importa, afinal, temos muitas avaliações a fazer para que mais um semestre acabe. E o que produzimos?

E qualquer que tenha sido o motivo do suicídio, vale a reflexão a respeito do lugar em que ela ocorreu: uma pessoa que “escolheu” pôr fim à sua existência num centro acadêmico, depois de uma festa, num lugar onde havia outras pessoas… Dirão que são coisas da “subjetividade” como se esta fosse uma espécie de armadura separando o sujeito de todo o social…dirão talvez que estivesse sob o efeito de drogas, mas se fosse isso, também isto não seria significativo? Qualquer que tenha sido o motivo, o suicídio no campus universitário nunca poderá ser encarado como um fato isolado. Talvez nunca possamos saber os reais motivos desse ato, mas podemos aventar a hipótese de um corpo que diz “não”… e ficaremos com as dúvidas: não para que ou quem? Não mais continuar a viver, e apresentar essa – escolha? decisão? – no depois de uma festa… qual o papel dos intelectuais, dos estudantes de humanidades frente a esse episódio? Talvez a inquietude oriunda dessa crise force os demais corpos a pensar aquilo que ainda não foi pensado, talvez se exija dos corpos que ficaram e ainda resistem, entender o que se passa na universidade, entre os corpos que nela se encontram, que formas de vidas estão sendo favorecidas pela universidade e que outras formas – como e de que forma – estão sendo abafadas, mortificadas, paralizadas…enfim, a universidade tem ou não sua cota de responsabillidade diante desse acontecimento? E mais: quem – ou que é – afinal, a universidade?

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